abril 30, 2004

Parabéns, Mestre Iosif Landau!

Nasci de uma família judia e burguesa em Bucareste, o país considerado o mais anti-semita da Europa, em 30 de abril de 1924. O dinheiro (éramos ricos) facilitou muito minha vida, muito conforto, muita alienação. Cursei o ginásio na Romênia, até completar catorze anos. Continuei os estudos na Inglaterra. Na eclosão da guerra de 39 permaneci lá e o restante da família — pai, mãe, irmã (a artista plástica Myra Landau) — voltou para Bucareste. Em dezembro de 1940 vim para o Brasil, onde a minha família já residia. Completei o ginásio no Rio, estudei engenharia, graduei-me em 1949, casei-me em 1950. Tenho quatro filhos (três homens e uma mulher) e oito netos. Trabalhei durante mais de quarenta anos na profissão e sinto orgulho de ter contribuído para o desenvolvimento do Brasil, construindo rodovias, ferrovias, hidrelétricas e na eletrificação. A vida nômade permitiu-me conhecer muito bem o país e sua gente. Aposentei-me do trabalho em 1992. A educação que me foi dada desde a infância viciou-me na cultura, literatura, música, pintura. Sou também apaixonado pelo cinema.

Este é Iosif Landau, Engenheiro, escritor, pai e esposo, que hoje completa 80 anos, por ele mesmo. Mas ele é muito mais. Iosif publicou seu primeiro livro, Comissário Alfredo, aos 71 anos de idade. Desde então, foram mais nove livros, além do blog que ele atualiza muito frequentemente.

Traços frequentes na obra deste autor são a sensualidade, o humor, uma pontinha de desesperança e em vários livros ele declara seu amor incondicional ao Rio de Janeiro, cidade onde vive desde 1940. Um pouco de Iosif em Verso:

Fujam

Noite,
por que não silencia?
cães, carros, loucos, uivos, berros
desespero ímpar,
Noite,
me leva ao país da eterna adolescência
traga mensagens dos que me amam
quero espaço reservado na Nova Ordem
que apareçam os salvadores da alma
preciso de auxílio para a Travessia
serei bem sucedido?
Chuva acoita janelas
vento arranca telhas
geladeira estremece, vibra
a Travessia será silenciosa?
Êxtase, encantamento
vamos sorrir! conseguem?
Agarrem a mão de suas amadas
e fujam
Noite,
estou triste, tão triste!

Mantra

Não pense nele, não olhe a lua, nem ouça o gorjeio do sabiá, não suspire num jardim florido, não acredite na magia do olhar, na imortalidade das promessas, a primavera não é eterna Eros não é anjo, Asphodel abre as pétalas em Hades, assuma a posição do lótus e medite, Karma, causa e efeito, ilusão e desejo, nada tem a ver com isso, Burroughs atirou na maçã, acertou a mulher, chorou ao ser absolvido, as esposas de Fábio Júnior são recicláveis, Homer o cão de Ferlinghetti com penis cativus em São Francisco exemplo a ser seguido, a poeta Mira Bai escreveu faz séculos a la la, ho, a la la ho, amor puro é comédia.

Dos livros de prosa de Iosif Landau, um com especial sabor é o Memória Tumultuada, um auto-retrato do autor que nos faz rir, chorar, sentir raiva e principalmente amá-lo. Neste livro o autor nos fala de sua vida sem pudores, reservas. No epílogo, ele nos conta: "Não revisei o que escrevi, não mudei uma palavra, uma frase, um pensamento, se me repeti e abusei da paciência dos meus leitores, peço desculpas mas esse livro é o que eu sou, impulsivo, amoroso, confuso, passional, arrependido, rancoroso e sentimental, crente e descrente, cínico, irônico, violento e tímido, corajoso e covarde, impiedoso, irreverente... Julguem-me, mas não me condenem. Cogito ergo sun."
Hoje, neste belo dia de sol de Belo Horizonte, Mestre Iosif Landau faz oitenta anos de idade. E eu, aprendiz humilde, aplaudo desejando que mais oitenta comemore, pra dar tempo de nos ensinar. Um beijo, Iosif.

O trecho inicial que fala da vida de Iosif Landau foi retirado de seu site oficial.
Conheça também o blog do autor.

Postado por andrea2386 em 11:54 AM | Comentários (12)

abril 22, 2004

Baseado em "O Mar e os Sinos", de Pablo Neruda

Se eu olhar teu nome na noite, verei espelho desenhado em vértices azuis. Verei a curvas de veias por onde corre a areia molhada de teu sangue, verei rastros. Se eu pegar tua mão na estrada, tocarei o fundo como um cordão de castelos em vão. Farei do toque o som do gosto teu, meu molhar de eterno silêncio, minha janela aberta para que voe a palavra escrita. Se eu olhar teu sentir, sonharei cansado de si mesmo, criança doente a caminhar noite e dia a buscar minha voz. Busco meu olhar em pobre destino, de rota perdida, de braço impotente, de cor desbotada, por que é obrigatório obedecer ao errado, deixar crescer também o vento dentro de casa. Ao levar, estou sozinha. E por fim, me calo.

Postado por andrea2386 em 11:44 AM | Comentários (20)

abril 18, 2004

Devo ser, da noite, o brilhar de estrelas a alma-molhar. Devo inundar as cores transparentes dos olhares levantados em oração. Lábios selados, rostos velados, corpos ausentes hão de me compor em melodia viva a espalhar-se. Verbo e verso juntos a dançar em volta de minha pena muda, indiferente, inerte diante de tudo que não é distância. Devo das luas fazer a passagem daquilo que hoje me encanta, me canta a veia, me corre o céu, me morre o véu a cobrir as sombras lúdicas plantadas por mim. Fazer verdade cada palavra soprada em testamento, versar meu canto maldito no ar. Devo, da ausência, fazer o amor, conjugar o amar, o sentir e o querer, o não-mirar, o não-morrer que me toma a cada medo, a cada modo de lágrima a encurvar meu calor. Devo juntar-me como nuvem formando chuva a trazer alento ás cascas sagradas da terra. Entregar-me então aos caprichos do tempo e do som a vibrar e fazer vibrar, emocionar orquestrando os movimentos de eus e meus a rodopiar ao compasso do mar tranquilo. E me perder, pois a mim, nesse momento, melhor não achar...

Postado por andrea2386 em 12:27 AM | Comentários (7)

abril 16, 2004

À Leonardo, sobre o Maleta

Estátuas sorrindo para o céu e pedras de mãos dadas paseiam pela cidade enquanto a relva envelhece como o vinho que sorvi e agora faz brilhar minhas veias com sua luz. Doces árvores, como fossem mães, se abraçam e dançam ao som do canto da lua. Baudelaire sussurra a morte de uma esposa e sorrimos felizes coroando putas que passam como rainhas. Do outro lado da rua, a brancura de um lírio no nariz de crianças perfumam o desejo da casa ao lado. Nascem cogumelos em meus cabelos esverdeados e a gente rasga o tempo e ri alto. Resolvemos espremer os dentes e gerar um copo de nós. Brindemos! Amanhece, o jantar nos olhando, por cima dele o extase rosáseo, cansa-nos o dia. Hora de pairar.

Postado por andrea2386 em 11:18 AM | Comentários (4)

abril 15, 2004

Noite II

palavras soltas passeando
pelas linhas paralelas da cidade
parecem folhas de outono
voam dando significado
ao espaço sozinho de cada um
cada qual com sua solidão
eram tantos e tão sozinhos
sorriam lágrimas verdes
comiam biscoitos da sorte
sussuravam seus velhos segredos
nos ouvidos de gastas rameiras
que os olhava como mães olham seus filhos
falavam alto e rezavam
ao deus e ao diabo da sorte
até encontrarem as palavras
e verem que são mesmo sós
eles, o vinho, as rameiras
tudo uma coisa apenas
triste, profunda, sonâmbula
que não deixam passar a noite
com medo de a vida ir junto

Postado por andrea2386 em 12:00 AM | Comentários (5)

abril 14, 2004

Noite

Vermelho o sol desmembrado de seu calor não faz sentido como antes, e nem tece entrecores o cinza das paredes que se fecham. Inexpressivo, é como morto sob o dia sem luz, como em gelo pólo estivesse. Gelo, do pólo ou não, tem feito em redor seu mundo de folhas frias de outono por que mortas, mortos os dias sem ver aurora. A noite é boa, manda nos bichos, nas pedras, a luz da noite esconde ao invés de mostrar, e à noite tudo é real e se cria sozinho, sem contador pras histórias do escuro. A noite é verdade inventada onde o álcool e a solidão se abraçam e criam as vidas mais belas, enquanto la nave va...

Imagem de Curtis Salonick
Postado por andrea2386 em 2:30 PM | Comentários (2)

abril 13, 2004

A Vida Imita a Arte

Malvados - Quadrinhos de Humor sem Coração
Postado por andrea2386 em 1:08 AM | Comentários (7)

abril 11, 2004

In Capaz

eu não sou mais cristã. não sou mais branca, calma, não sou mais mulher. não sou mais brasileira, não sou mais leve ou rápida por algo muito simples: eu deixei de acreditar. cheguei no triste ponto onde nada mais faz diferença. trabalho, estudo, emprego, "família", nada disso. obrigações, só a de seguir, mesmo assim por enquanto. eu sou covarde. eles me rejeitam, então os rejeito também. não faz diferença estar ou não onde quer que seja. uma pena apenas não saber quando acaba. se cuida, mundo. dois ou três ainda podem valer a pena.

Postado por andrea2386 em 9:45 PM | Comentários (4)

Páscoa

Fonte: GPB Cartoons

Com todo respeito, alguém aí ainda se lembra do que é comemorado na páscoa? Ou todo mundo acha que é a descoberta do mercado consumidor de ovos de chocolate? Postado por andrea2386 em 12:33 PM | Comentários (1)

abril 9, 2004

Dúvida Cruel

Á tarde, bêbada numa lindo dia de sol, tomando uma deliciosa cerveja gelada com meu namorado, me assaltou uma dúvida cruel: Escreveria um post sobre uma série de livros infantis que estou lendo, ou sobre o fato de a religião (toda e qualquer religião) ter sido criada como forma de dominar massas populares. Evitando o desgaste mental para resolver tal dúvida, roubei o tchananam abaixo do belíssimo site Outrossim.


Postado por andrea2386 em 7:11 PM | Comentários (3)

abril 6, 2004

Desenho do Tempo

e medo e frio e mãos e espaço entrelaçado ao suor de teus pêlos revelaram no pulsar do tempo todo o corpo rebeijado, todo o viço revisitado, e teus dedos gelados contraíram ao passar dos anos, teus lábios roubaram a intensidade do espasmo, tua voz em som perdido se esvaiu, e um a um, caíram a teus pés sol, lua, noite e pássaros, estrela a estrela, pio a pio, rouco soluço se fez ouvir tão alto que teu tremor de repente emudeceu, anoiteceu teu jeito antigo, amarelecido e tocado em cada parte do pequeno clarão atrás da íris do vinho amarelo olhar de cor diluída e vergado cansaço de tudo que há


Pós-Post:

Ali embaixo, no canto direito, tem uma novidade. Se você quiser saber quando este blog foi atualizado, ponha seu e-mail e o Blogarithm avisa você. Não é preciso que o blog tenha a figurinha do site, você se inscreve fornecendo um e-mail (e apenas isso) para que o site possa te avisar, e quando seus blogs prediletos forem atualizados, você será avisado. Muito interessante.

Pós-pós-post:

E o troço funciona mesmo! Olha só o e-mail que eu recebi:

Hi blog reader,

The following blogs have new activity:


http://www.todosossentidos.blogger.com.br/

.:. Fabricio Carpinejar .:.
http://www.carpinejar.blogger.com.br/

"ki ein banu maassim"
http://calvahrio.blogspot.com/


http://www.damasco.splinder.it/


http://www.objecto.blogger.com.br/

yehuda
http://www.yehuda.festim.net/

Uma dama não comenta
http://dama.blogspot.com/

To manage your blogmail account, follow this link:
http://www.blogarithm.com/account.php


Yours,
The blogarithm team

É linda a tecnologia :)

Postado por andrea2386 em 2:22 AM | Comentários (9)

abril 4, 2004

Casa Nova

Finalmente eu me mudei de casa! Desde o antigo Versamentos que eu já tinha o projeto de sair do blogger.br, o motivo maior que eu precisava foram as mudanças de regra e a quebra de palavra que a Globo.com arrumou deletando blogs de amigos que estavam conforme as exigências sem sequer aviso prévio. Isso me tirou do sério e tirou do ar meus Versamentos. Desde então, eu vinha experimentando, até que encontrei meio por acaso este novo lar, onde cada morador é tratado com respeito (e diga-se de passagem, só tenho vizinho bom mesmo!) e consegui arrumar um espaço bem-feito e bonito. Ainda estou arrumando a casa, pondo os links de amigos aos poucos, avisando da mudança a cada um que me visitava. De início, agradeço ao Fábio e ao Blog Brasil pelo espaço cedido e pela gentileza com que fui tratada. Aos poucos a casa vai ficando com a minha cara. Enquanto isso, paciência.

Postado por andrea2386 em 11:24 PM | Comentários (20)