Sentada, olhando em volta, tudo era amarelo tecido em grãos de poeira e fogo, e eu estava lá. O mais perto era de longe visto, num modo de estátua como fosse gente, com imensos olhos de um saber guardado. Ah, que a imagem estampada de um deserto era flor no coração de argila de quem via assim parado tanto tempo passado em céu aberto! Era ou não passado, fazia febre a estrela e o grão de areia, uma acima da cabeça, outro embaixo dos pés, delírio aumentando, defesas caindo, e a febre tomando conta, espalhando feito veneno e mandando embora o juízo, suor do corpo caminhando feito nômade, escorrendo feito lágrima que evapora antes de explodir pelo chão de areia. A terra rodopiando devagar, eis que a febre se abre em sensações e palavras calorentas que fazem tremer antes de deitar pelo fogo e pela areia e esperar assim pelo que antes era o desejo, agora inevitável se faz.

O que fazer agora que todos foram embora, não vejo mais nada ou ninguém em torno de mim, o que fazer? Amanheci assim com jeito de chuva nos olhos e uma solidão maior do que eu. Não, não sei pra onde foram ou se quem foi fui eu. Só sei que a ilha que eu estava ficou de repente maior, mas não me cabe mais. Estou assim sem espaço pra mim. Não estou cabendo em nada. Minha casa não é mais minha e a casa de minha alma não existe mais, há um nonsense no ar que me deixa perdida. Na verdade, nem sei se procuro, ou o que procuro, só sei que algo tem de ser achado pra chuva ir embora e eu voltar. Ou quem sabe andar com a chuva, eu e minha solidão brilhante que reflete a cor das paredes. Quem sabe.
Acordei com uma nuvem encobrindo meu sol. Engraçado é que a nuvem não diminuía a claridade, e o brilho do dia incomodou muito meus olhos. Eu, do alto da sabedoria de meus quinze anos, nunca gostei de claridade, mas ela sempre me perseguiu, como me persegue hoje a nuvem condensada de elétrons e coisas que eu não quis, e agora me atazanam como um fantasma de alguém que matei. Ou que me matou, não sei. Mas sei que estou aqui, e me lembro bem das coisas, inclusive das não-vividas, e sei que elas me espreitam a todo momento como a me perguntar o porquê. Ao fundo, Heberth Viana diz "você não merece o que eu te fiz só pra te machucar", eu rio de um jeito quebrado que só sai de mim quando a claridade me invade assim. Mas fica tudo entre nós.

Uma tela de Gockel é inconfundível. Era assim que eu queria ser. Queria que ao ver um trabalho meu, todos soubessem que era meu. Pelo jeito vu ter que aprender a pintar.
Um beco mal-iluminado
uma rua de pedra e veneno
e eu escorrendo pelos cantos
com meus cantos todos guardados
as curvas, as putas, os bares
meus irmãos de copo e de corpo
meu mundo tão óbvio, tão grande
e o medo que eu sinto das coisas
um engano é tudo isso
um engano sou eu
mas se tem quem acredite
vou sorrindo e bebendo
levando a noite como a vida me leva
Tive um domingo bem comum. Passei o dia entre poemas de Allen Ginsberg, um show de Morais Moreira e umas cervejas numa praça de bairro. Na praça, as árvores pareciam mulheres feitas de marrom e verde, e eram enormes como mães. Um som muito alto fazia a cabeça da gente doer, e num bar de esquina fiquei assistindo as tais árvores dançarem. Enquanto isso, meu copo, como meu corpo esculpido em pedra, esvaziavam, e cheguei á conclusão de que tempo e cerveja sempre acabam mais rápido do que a gente espera. Uma lua pela metade iluminava a rua de calçamento quando me despedi da vida e voltei pra casa. Continuo em modo de outono e os dias, ao contrário do tempo, não acabam nunca.
